Clubes e federações pressionam Lula contra MP que ameaça apostas
Entidades do futebol buscam audiência para impedir medida que pode cortar patrocínios das operadoras de bets.

Diretoria de clubes como Flamengo, Corinthians e Palmeiras enviou pedido formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, exigindo audiência para discutir a Medida Provisória que visa vetar parte das atividades das operadoras de apostas. A iniciativa surge em meio à possibilidade de a MP restringir o modelo de negócios que tem financiado grande parte dos contratos de patrocínio no futebol nacional. O pedido ganha urgência porque a medida pode ser publicada ainda nesta semana, antes da volta de Lula dos Estados Unidos.
O governo federal, segundo apuração do GE, estuda editar a MP para proibir jogos de cassino online, segmento que gera a maior parcela dos lucros das empresas de apostas. Embora a proposta não mencione diretamente as apostas esportivas, dirigentes temem que a restrição ao cassino crie um efeito cascata que inviabilize investimentos nas categorias de patrocínio vinculadas ao futebol. Lula, que está em Nova Iorque para a Assembleia Geral da ONU, deve retornar ao Brasil ainda nesta quarta-feira.
Na última sexta‑feira, os seis maiores clubes — Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco — divulgaram um manifesto conjunto alertando para o "fim do futebol brasileiro" caso a MP avance. A pesquisa da consultoria Bites, realizada a pedido do O Globo, mostrou que mais de 90% dos comentários nas publicações do Vasco foram contrários às bets, 86% no caso do Flamengo e 85% nas postagens dos clubes paulistas. O forte repúdio nas redes sociais evidencia a preocupação dos torcedores com a possível perda de patrocínios.
Desde a legalização das apostas esportivas em 2022, as operadoras tornaram‑se as principais fontes de receita publicitária para os clubes. Contratos como o da Betano com o Palmeiras (renovado em 2024) e o da Bet365 com o Flamengo (assinado em 2023) movimentam cifras que chegam a cerca de 30% do orçamento de patrocínio de cada equipe. Essa dependência acelerou a profissionalização dos departamentos de marketing e ampliou o investimento em tecnologia e engajamento digital nas arenas.
Caso a MP seja efetivada, a perda potencial de patrocínio pode reduzir em até R$ 150 milhões o faturamento anual conjunto dos seis clubes citados, segundo estimativas de analistas da BMG Capital. Além do impacto financeiro imediato, a medida pode desencorajar novas negociações com outras operadoras, limitando a capacidade dos clubes de financiar contratações, modernização de estádios e projetos sociais. O risco de queda de receita também pode afetar o equilíbrio financeiro exigido pela Lei do Futebol.
A estratégia dos dirigentes combina pressão institucional e mobilização da torcida nas redes sociais, buscando transformar a questão em tema de debate público antes da votação da MP no Congresso. Lula, que tem buscado equilibrar agenda econômica com pressões de setores conservadores, pode avaliar a repercussão política antes de conceder a audiência. A decisão do presidente será observada de perto pelos investidores das operadoras, que já sinalizaram revisão de contratos caso a restrição se confirme.
Para o futebol brasileiro, o próximo passo será a reunião solicitada com a Casa Civil, prevista para acontecer ainda nesta semana, seguida da tramitação da MP no plenário. Enquanto isso, clubes e federações devem intensificar a campanha de comunicação, destacando a importância das apostas para a sustentabilidade do esporte. O desenrolar da medida será decisivo para definir se o modelo de patrocínio atual permanecerá ou se o futebol buscará novas fontes de receita.
Fonte: ge.globo
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