Alison dos Santos quebra recorde mundial nos 400m com barreiras
A combinação de largada agressiva e técnica impecável levou o brasileiro a 45,80 segundos em Zurique.

Na quinta‑feira (27) da Diamond League de Zurique, Alison dos Santos – conhecido como Piu – cravou 45,80 segundos nos 400 metros com barreiras, estabelecendo um novo recorde mundial e reduzindo quase um segundo a marca de 46,72s que lhe rendeu o bronze em Tóquio. O feito surge num momento decisivo da temporada, quando os atletas já começam a calibrar o pico de forma para os Jogos Olímpicos de Los Angeles. A corrida foi descrita como “sem erro técnico, sem desacelerar na descida da barreira, entrando de forma agressiva em cada barreira” pelo professor Evandro Lázari, da Unicamp.
O recorde representa a culminação de uma trajetória que começou com um bronze olímpico em 2021 e evoluiu para quatro marcas pessoais abaixo de 46 segundos em 2026. Aos 26 anos, Piu supera rivais como Karsten Warholm (30) e Rai Benjamin (29), cujas melhores marcas ainda datam de Tóquio. Das 34 melhores marcas históricas nos 400 m com barreiras, 14 pertencem a Warholm, 11 a Benjamin e nove a Alison, sendo quatro dessas últimas registradas neste ano, evidenciando um salto de qualidade consistente.
A mudança de estratégia foi decisiva: ao contrário de uma primeira metade controlada, Alison adotou uma largada mais agressiva, mantendo velocidade até a quarta barreira e ainda reforçando a força na chegada. Sua altura e a capacidade de alternar as pernas de ataque permitiram transpor os obstáculos sem perda de ritmo, algo que Lázari destacou como essencial para evitar que “qualquer erro em uma das dez barreiras pode quebrar o ritmo”. O treinador Felipe de Oliveira, que acompanhou a prova da arquibancada, confirmou que a preparação focou em “velocidade máxima no início e resistência de velocidade” para sustentar a vantagem até o fim.
Taticamente, o recorde altera o panorama da disputa olímpica. Warholm e Benjamin ainda carregam as marcas de Tóquio, mas a velocidade de partida de Piu obriga os adversários a repensar a estratégia de “crescer na chegada”. Conforme o consultor do COB, Jorge Bichara, “ele conseguiu largar forte e manter esse nível”, o que pode forçar os europeus a adotar um ritmo mais precoce, expondo vulnerabilidades nas fases finais da prova.
A escolha de treinar nos Estados Unidos desde 2019, primeiro em Chula Vista e depois em solo californiano durante a pandemia, foi apontada como um dos grandes saltos de qualidade. A estabilidade de treinamento, aliada à proximidade com o treinador Pablo Ramon Domingos, gerou um ambiente propício ao refinamento técnico e à melhoria física. Esse contexto já começou a repercutir em patrocínios e na visibilidade do atletismo brasileiro, colocando Alison como principal nome da modalidade no país.
Com o recorde em mãos, a próxima parada de Piu será o Campeonato Mundial de Atletismo, previsto para o final de agosto, onde testará sua forma contra Warholm e Benjamin em condições de alta pressão. Os analistas recomendam observar a evolução da velocidade de saída e a manutenção do ritmo nas últimas 100 m, indicadores que determinaram a vantagem em Zurique.
Se a tendência de melhorar a combinação entre explosão inicial e resistência de velocidade continuar, Alison dos Santos tem condições reais de buscar a medalha de ouro em Los Angeles e, possivelmente, baixar ainda mais o recorde mundial. O que resta agora é a capacidade de replicar a perfeição de Zurique em diferentes pistas e sob o peso da expectativa olímpica.
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